Ética, Crise e Imagem

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Flávia Marchezini

Quer conhecer o caráter de uma pessoa? Dê a ela poder! A frase, atribuída a Abraham Lincoln, pode ser adaptada a situações de incerteza e escassez, como a grave crise intersetorial que experimentamos. Diferentemente dos problemas cotidianos, as crises geram interrupção das operações regulares e impactos negativos por prazo maior, e a crise provocada pelo COVID-19 será, provavelmente, a mais disruptiva dos últimos séculos.

Em cenários como o que se alinha, a ética humana é posta à prova. Iniciativas solidárias e colaborativas são contrapostas a aumentos abusivos de preços de itens essenciais, superfaturamento de contratos públicos e privados emergenciais, disseminação de fake news e aproveitamento político da tragédia com finalidade eleitoreira, empregados em serviços essenciais que simulam doença para a obtenção de atestados, cadastros fraudulentos para o recebimento do auxílio emergencial, etc. É o vale tudo do “salve-se quem puder” justificado “racionalmente” por uma espécie de Darwinismo Social.

Mesmo no campo da filosofia, trava-se uma discussão em torno das teorias universalistas, que pregam a honestidade como valor universal e defendem, no caso, a proteção das vidas, e as teorias consequencialistas, como o utilitarismo, que defende o maior benefício para o maior número de pessoas, no caso, os sobreviventes e a economia do país. Não se pode negar que, neste momento, todos temos metas bem primitivas e interdependentes: sobreviver física e economicamente. Mas será que devemos agir como os “homens das cavernas” em um sistema imediatista de punições e recompensas? Vale a lógica do “se a farinha é pouca o meu pirão primeiro”?

Antes do vírus, cresciam em ritmo lento movimentos como economia colaborativa/compartilhada, capitalismo consciente, sustentabilidade multidimensional, ecologia integral, cidades CHICS (Humanas, inclusivas, inteligentes, criativas e sustentáveis), dentre outros que pregavam um maior desenvolvimento ético e princípios de fraternidade universal. Não seria um bom momento para refletirmos profundamente sobre a nossa forma de viver em sociedade, em nossa relação com o meio ambiente e com os outros seres?

As privações a serem experimentadas demandam um crescimento desses movimentos e o repensar nossas formas de relação, de produção e consumo. Vale lembrar que, após os escândalos de corrupção experimentados recentemente na história do nosso país, a ética passou a ser um bem imaterial que, além de essencial para a vida em sociedade, também agrega valor aos negócios. Nesse sentido, empresas e governos que se esforçarem para manter empregos e forem essencialmente éticos, inclusivos e empáticos sairão maiores dessa crise.

Tempos de crise são cheios de dor, tristeza e preocupação, mas também são tempos de resiliência, aprendizado e desenvolvimento. Têm que ser! Pois se tudo passa, a crise também passará, mas a imagem e a integridade das pessoas e empresas ficarão, e pautarão nossas escolhas presentes e futuras.


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Flávia Marchezini

É Professora de Direito Ambiental, Direito Urbanístico e Compliance dos cursos de graduação e pós-graduação da Faculdade de Direito de Vitória –FDV. Procuradora do Município de Vitória com atuação nas áreas de meio ambiente e urbanismo. Mestre em História Social das Relações Políticas (UFES), é advogada e consultora (OAB/ES 8.751) de Sustentabilidade e Compliance da Rede Brasileira de Cidades Inteligentes e Humanas (REDE), Vice-presidente da Comissão de Meio Ambiente da OAB/ES, Membro do Compliance Women Committee e do Conselho Estadual de Ética Pública do Espírito Santo, além de Palestrante e autora de obras e artigos sobre Direito Ambiental, Direito Urbanístico e Compliance.

Email: flavia.marchezini@gmail.com

4 respostas

  1. Flávia bom dia, o caráter de sua mensagem é o caminho natural de pessoas de bem, que conduziram seus esforços quando no entorno do que conduzem estiverem seus parentes e amigos. É o modelo de atuar quando se tem uma visita.

Minha experiência durante muitos meses com o poder público e privado me mostrou que esse mesmo homem, agora convertido aos elementos econômicos e de visibilidade em marketing, não quer fazer o correto. Quer resultados a qq custo, mesmo que haja risco administrável.

  1. Prezado, entendo bem a sua indignação, que também me bate às vezes. O “sistema” têm sido assim, via de regra. Mas também já testemunhei pequenas mudanças, pequenos avanços e são neles que me fio. Não gosto, particularmente, dessa ideia de “pessoas de bem” porque todos nós somos dúbios, contraditórios, falíveis.

Eu mesma ainda não sou uma “pessoa de bem”. Mas quero muito ser e tenho me esforçado bastante pra isso.